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segunda-feira, 26 de agosto de 2013



Tomara

Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz
E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz

E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais...

Vinícius de Moraes

segunda-feira, 12 de agosto de 2013





Soneto da saudade

Quando sentires a saudade retroar
Fecha os teus olhos e verás o meu sorriso.
E ternamente te direi a sussurrar:
O nosso amor a cada instante está mais vivo!
Quem sabe ainda vibrará em teus ouvidos
Uma voz macia a recitar muitos poemas...
E a te expressar que este amor em nós ungindo
Suportará toda distância sem problemas...
Quiçá, teus lábios sentirão um beijo leve
Como uma pluma a flutuar por sobre a neve,
Como uma gota de orvalho indo ao chão.
Lembrar-te-ás toda ternura que expressamos,
Sempre que juntos, a emoção que partilhamos...
Nem a distância apaga a chama da paixão

João Guimarães Rosa

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Ao Coração Que Sofre


Ao coração que sofre, separado Do teu,
 no exílio em que a chorar me vejo,
 Não basta o afeto simples e sagrado
 Com que das desventuras me protejo.


Não me basta saber que sou amado,
 Nem só desejo o teu amor:
 desejo Ter nos braços teu corpo delicado,
 Ter na boca a doçura de teu beijo.

E as justas ambições que me consomem
 Não me envergonham: pois maior baixeza
 Não há que a terra pelo céu trocar;

E mais eleva o coração de um homem
 Ser de homem sempre e, na maior pureza,
 Ficar na terra e humanamente amar.

Olavo Bilac

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Se Me Esqueceres...


  Pablo Neruda - Chile 1904 // 1973 Poeta


Se Me Esqueceres  
Quero que saibas
uma coisa.
 
Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fosse pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.

Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.

Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.

Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.

Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.

Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda"

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Ou Isto ou Aquilo







Ou Isto ou Aquilo
 Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

Cecília Meireles

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Timidez






Timidez

Basta-me um pequeno gesto,
Feito de longe e de leve,
Para que venhas comigo
E eu para sempre te leve...

Mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
Das montanhas dos instantes
Desmancha todos os mares
E uni as terras mais distantes...

Palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
Entre os ventos  taciturnos,
Apago com meus pensamentos,
Ponho vestidos noturnos

Que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
Os mundos vão navegando
Nos ares certos do tempo,
Até não se sabe quando...

E um dia me acabarei.

Cecília Meireles

segunda-feira, 1 de julho de 2013

BRASIL




Brasil!
Tetra Campeão da Copa das Confederações 
FIFA 2013




Aos Heróis do Futebol Brasileiro





Eu vos saúdo

  heróis do dia

que vos fizestes compreender

numa linguagem muda,

escrevendo com os pés

magnéticos e alados

uma epopéia internacional!


As almas dos brasileiros

distantes

vencem os espaços,

misturam-se com as vossas,

caminham nos vossos passos

para o arremesso da pelota

para o chute decisivo

da glória da Pátria.


Que obra de arte ou de ciência,

de sentimento ou de imaginação

teve a penetração

dos gols de Leônidas

que, transpondo balizas

e antipatias,

souberam se insinuar

no coração

do Mundo!


Que obra de arte ou de ciência

conteve a idéia e a emotividade

de vossos improvisos

em vôos e saltos,

ó bailarinos espontâneos

ó poetas repentistas

que sorrindo oferecestes vosso sangue

à sede de glória

de um povo

novo?


Há milhões de pensamentos

impulsionando vossos movimentos

Na esportiva expressão

que qualquer raça entende

longe de nossa decantada natureza

os Leônidas e os Domingos

fixaram na retina do estrangeiro

a milagrosa realidade

que é o homem do Brasil.


Eia

atletas franzinos

gigantes débeis

que com astúcia e audácia,

tenacidade e energia

transfigurai-vos,

traçando aos olhos surpresos

da Europa

um debuxo maravilhoso

do nosso desconhecido país.



 

Gilka Machado 


Publicado no livro Sublimação (1938).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. 

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Via Láctea - Soneto XIII

 


 

Via Láctea - Soneto XIII
 
"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".

Olavo Bilac
 

 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Desiderata




Desiderata

Siga tranquilamente entre a inquietude e a pressa, lembrando-se que há sempre paz no silêncio. Tanto que possível, sem humilhar-se, viva em harmonia com todos os que o cercam.

Fale a sua verdade mansa e calmamente e ouça a dos outros, mesmo a dos insensatos e ignorantes – eles também tem sua própria história.


Evite as pessoas agressivas e transtornadas, elas afligem nosso espírito. Se você se comparar com os outros você se tornará presunçoso e magoado, pois haverá sempre alguém inferior e alguém superior a você. Viva intensamente o que já pode realizar.


Mantenha-se interessado em seu trabalho, ainda que humilde, ele é o que de real existe ao longo de todo tempo. Seja cauteloso nos negócios, porque o mundo está cheio de astúcia, mas não caia na descrença, a virtude existirá sempre.


“Você é filho do Universo, irmão das estrelas e árvores. Você merece estar aqui e mesmo que você não possa perceber a terra e o universo vão cumprindo o seu destino.”


Muita gente luta por altos ideais e em toda parte a vida está cheia de heroísmos.


Seja você mesmo, principalmente, não simule afeição nem seja descrente do amor; porque mesmo diante de tanta aridez e desencanto ele é tão perene quanto a relva.


Aceite com carinho o conselho dos mais velhos, mas seja compreensível aos impulsos inovadores da juventude.


Alimente a força do Espírito que o protegerá no infortúnio inesperado, mas não se desespere com perigos imaginários, muitos temores nascem do cansaço e da solidão.


E a despeito de uma disciplina rigorosa, seja gentil para consigo mesmo. Portanto esteja em paz com Deus, como quer que você O conceba, e quaisquer que sejam seus trabalhos e aspirações, na fatigante jornada da vida, mantenha-se em paz com sua própria alma.


Acima da falsidade, dos desencantos e agruras, o mundo ainda é bonito, seja prudente. 

Faça tudo para ser feliz

Max Ehrmann





segunda-feira, 10 de junho de 2013

Laço de Fita







Laço de fita


Não sabes, criança? 'Stou louco de amores...
Prendi meus afetos, formosa Pepita.
Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!
Não rias, prendi-me
Num laço de fita.


Na selva sombria de tuas madeixas,
Nos negros cabelos da moça bonita,
Fingindo a serpente qu'enlaça a folhagem,
Formoso enroscava-se
O laço de fita.


Meu ser, que voava nas luzes da festa,
Qual pássaro bravo, que os ares agita,
Eu vi de repente cativo, submisso
Rolar prisioneiro
Num laço de fita.


E agora enleada na tênue cadeia
Debalde minh'alma se embate, se irrita...
O braço, que rompe cadeias de ferro,
Não quebra teus elos,
Ó laço de fita!


Meu Deus! As falenas têm asas de opala,
Os astros se libram na plaga infinita.
Os anjos repousam nas penas brilhantes...
Mas tu... tens por asas
Um laço de fita.


Há pouco voavas na célere valsa,
Na valsa que anseia, que estua e palpita.
Por que é que tremeste? Não eram meus lábios...
Beijava-te apenas...
Teu laço de fita.


Mas ai! findo o baile, despindo os adornos
N'alcova onde a vela ciosa... crepita,
Talvez da cadeia libertes as tranças
Mas eu... fico preso
No laço de fita.


Pois bem! Quando um dia na sombra do vale
Abrirem-me a cova... formosa Pepita
Ao menos arranca meus louros da fronte,
E dá-me por c'roa...
Teu laço de fita.

Castro Alves

terça-feira, 4 de junho de 2013

Semeios e Colheitas






Se temos de esperar, 

que seja para colher a semente boa que lançamos hoje no solo da vida. 

Se for para semear,

 então que seja para produzir milhões de sorrisos, 

de solidariedade e amizade

Cora Coralina